São Paulo / SP - segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

Transtornos por uso e abuso de substâncias psicoativas em crianças e adolescentes

 Transtornos por uso e abuso de substâncias psicoativas em crianças e adolescentes

Juliana Gomes Pereira

Introdução

O objetivo deste capítulo é abordar, de forma sucinta e clara, alguns aspectos da adolescência, vulnerabilidade desta faixa etária em relação às drogas, sistema de recompensa, epidemiologia no Brasil, conceitos para a prevenção do uso de substâncias psicoativas, como resiliência, fatores de risco e de proteção, classificações diagnósticas, tipos de tratamento e a dinâmica familiar.

Diante da precocidade do contato com drogas lícitas e ilícitas, associadas às condições de vulnerabilidade, considero fundamental o tema na formação de residentes de psiquiatria, principalmente, a fim de orientar as famílias, encaminhar para tratamento e prestar atendimento adequado a esta população nos pronto-atendimentos.

 

Os jovens são mais vulneráveis?

 

A adolescência é o período do desenvolvimento em que as crianças atravessam a fim de se tornarem adultos. Ocorrem mudanças intelectuais, hormonais, físicas e sociais. Trata-se de um período tumultuado, repleto de mudanças e transformações.  Durante a maturação gonadal e comportamental, há evidências, através de estudos de imagem de ressonância magnética, que os adolescentes apresentam vulnerabilidade cerebral específica para a impulsividade sexual, de apetite e de hábitos de sono (Arain et al, 2013).

Segundo Robaina (2010), a adolescência é um período de desorganização temporária, em que o distanciamento dos pais, as rebeldias, os comportamentos estranhos são meios que os adolescentes empregam para evoluir a um padrão de relacionamento mais adulto. Com toda essa efervescência na vida do jovem, o desconhecido e o proibido, por uma questão de rebeldia, acabam se tornando alvo de curiosidade. É uma fase de metamorfose. Época de grandes transformações, descobertas, de rupturas e de aprendizados. É, por isso mesmo, uma fase da vida que envolve riscos, medos, amadurecimento e instabilidades (Pinsky & Bessa, 2004).

Os primeiros contatos com o álcool e drogas geralmente ocorrem na adolescência. Nos anos de 1950 e 1960, esse primeiro contato ocorria por volta dos 18 anos, quando os jovens ingressavam na faculdade. Nas últimas décadas, a experimentação tem sido cada vez mais precoce, com quadros de abuso e dependência incidindo em idades cada vez mais precoces, apesar de os esforços preventivos estarem aumentando (Bessa, Boarati e Scivoletto, 2011). O aumento da vulnerabilidade pelo uso mais precoce ocorre, associado ao menor repertório de habilidades sociais e maior dificuldade de crítica diantes das consequências negativas.

É importante o reconhecimento de que a maioria dos adolescentes interrompe o consumo de drogas conforme vão assumindo outros papéis na vida adulta, sendo este fenômeno denominado Maturing out (vencimento, superação- em tradução livre), como uma remissão de consumo espontânea (MacCrady e Epstein, 1999). Apesar da proibição do uso de substâncias lícitas, há uma liberdade cultural para este consumo e a precocidade é preocupante pela possível restrição de outras experiências esperadas para a idade e pelo não conhecimento de quem são os adolescentes mais predispostos à dependência química. Sem dúvida, o uso mais tardio confere maior proteção.

Poucos fenômenos sociais geram mais preocupações entre pais e professores, custos com a justiça e saúde, dificuldades familiares e notícias na mídia do que o uso de álcool e drogas. Infelizmente, não há uma solução simples para um problema complexo. O uso de drogas na adolescência é visto, culturalmente, como um comportamento comum, de experimentação mas, nem por isso, este comportamento não é passível de produzir graves danos individuais e sociais.

A adolescência é especialmente a fase mais vulnerável da vida para a dependência química porque o cérebro ainda está em formação. A exposição às substâncias psicoativas (todas as drogas em geral) provoca no cérebro um desequilíbrio da função no sistema de recompensa cerebral pelo estímulo da liberação de neurotransmissores (como a dopamina) que gera a sensação de prazer e bem-estar e o seu uso continuado instala uma memória positiva das sensações de prazer e com isso, a compulsão à repetição do uso.

A liberação repetida de dopamina por meio de drogas leva a mudanças neuronais, ocasionando a sensibilização do organismo. Esta chamada “sensibilização”- ou tolerância reversa-  se manifesta pelo aumento dos efeitos da droga por meio de administrações repetidas em baixas doses. Assim, o indivíduo passa a exibir um comportamento compulsivo pela droga- o chamado craving ou fissura, que é um desejo duradouro, existente mesmo quando a motivação básica para consumir a droga já não é o prazer imediato ou a necessidade de evitar o desprazer da abstinência (Pinsky & Bessa, 2004). A dependência  ocorre quando há a produção de fatores gênicos com meia-vida prolongada, capaz de estabilizar as modificações estabelecidas nas fases agudas e modificar a resposta neuronal fisiológica (Dihel, Cordeiro, Laranjeira, 2011). Se um adolescente de 13 anos, por exemplo, usa álcool, tabaco e maconha todos os finais de semana, os riscos de comprometimento cognitivo são bastante significativos, assim como a alta possibilidade de adquirir a dependência química pela exposição precoce.

Sabe-se que em jovens que abusam de uma grande quantidade de substâncias, o aparecimento de dependência pode ser rapidamente progressivo. Estas crianças e adolescentes não associam imediatamente ao seu padrão de uso as consequências negativas que sofrem. Aqueles mais vulneráveis têm restrita visão do futuro e são menos motivados que os adultos para iniciar um tratamento (Zavaschi et al, 2009 apud Jainchil e Margolis, 2000).

Além das condições psicológicas e sociais, outro fator fundamental é o desenvolvimento de transtornos psiquiátricos. Segundo Kaminer (1994), 89% dos adolescentes usuários de drogas desenvolvem transtornos psiquiátricos, sendo mais frequentemente os transtornos de humor (ansiedade e depressão) e transtornos de conduta. Tais transtornos podem ser preexistentes  ou originados pelo uso, o que merece atenção especial no momento do diagnóstico (Scivoletto, 1997). De acordo com o NIDA, National Institute on Drug Abuse, o abuso de drogas em adolescentes está frequentemente associado a problemas de saúde mental, o que inclui o transtorno de déficit de atenção e hiperatividade, além do abuso físico, sexual e das dificuldades acadêmicas.

A dependência química é um dos riscos aos quais estão expostos os adolescentes usuários de substâncias psicoativas. Há que se considerar os acidentes automobilísticos que constituem significativas prevalências de morte em jovens, traumatismos, afogamentos, gestacão indesejada, doenças sexualmente transmissíveis, danos ao potencial intelectual, emocional e social.

Os prejuízos aumentam, de acordo com o aumento do envolvimento do consumo, bem como com as mudanças de comportamento, conflitos familiares, sociais e escolares, estreitamento do repertório social, atraso na aquisição de habilidades sociais e até envolvimento em atividades ilícitas.

 

 

Epidemiologia

 

 No Brasil, o estudo epidemiológico mais recente é o  II LENAD (II Levantamento Nacional de Álcool e Drogas). Trata-se da segunda fase do levantamento realizado em 2012, de um estudo desenvolvido em 2006 pelo  INPAD (Instituto Nacional de Políticas Públicas do Álcool e Outras Drogas) da UNIFESP (Universidade Federal de São Paulo); financiado pelo CNPq (Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico) e pela Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo (FAPESP). Foram selecionados aleatoriamente indivíduos com 14 anos ou mais de todo território brasileiro. Em 2006, 3007 entrevistas a domicílio foram realizadas, enquanto que, em 2012, um total de 4607 indivíduos de 14 anos de idade ou mais foram entrevistados em suas residências.

  A metodologia probabilística utilizada em ambos os estudos garante que as amostras representam toda a população brasileira. O desenho da pesquisa permite que se explore tendências no consumo de álcool e tabaco da população no período de 6 anos. Prevalências do consumo de substâncias ilícitas do país e das diferenças entre as regiões também estão sendo identificadas. As análises exploratórias das prevalências de uso e perfil do usuário estão sendo realizadas no presente.

Sobre o álcool, o que chama a atenção na síntese de resultados, é que as mulheres, especialmente as mais jovens, são a população mais em risco apresentando maiores índices de aumento entre 2006 e 2012 e bebendo de forma mais  nociva. Quase dois terços dos homens jovens bebedores problemáticos já se envolveram em uma briga com agressão física no últmo ano, o que demonstra prejuízo em decorrência do uso. Este índice sobe para 57% entre os que também usam cocaína.

O II LENAD apresentou os seguintes resultados preliminares sobre a maconha: quase 600 mil adolescentes (4% da população) já usou maconha pelo menos uma vez na vida, enquanto a taxa de uso no último ano foi idêntica a dos adultos (3% - equivalente a mais de 470 mil adolescentes). Cabe salientar que mais da metade dos usuários de uma vez na vida, tanto adultos quanto adolescentes consomem maconha diariamente (1.5 milhões de pessoas). No primeiro ano do levantamento, o método era um questionário a ser respondido e no segundo ano, foi preenchido, com mais sigilo, Os autores sugerem que este possa ter sido um viés para o aumento da prevalência de consumo de maconha. Por outro lado, quando avaliamos a proporção entre usuários adultos e adolescentes o estudo mostrou um aumento de usuários adolescentes entre  2006 e 2012. Ou seja, em 2006, existia menos de 1 adolescente para cada adulto usuário de maconha; enquanto em 2012 encontram-se 1.4 adolescentes para cada adulto usuário.

Mais de 60% dos usuários de maconha experimentaram a droga pela primeira vez antes dos 18 anos de idade, o que indica um aumento da experimentação precoce de 40%. Na adolescência, os índices de dependência  alcançam 10% entre usuários, enquanto que nos adultos é de 33% dos usuários. O Brasil não está entre os países com maiores índices de uso de maconha no mundo. Encontramos desde 2% de uso no último ano na Ásia, em torno de 5% na Europa, e de até de 10% nos Estados Unidos; enquanto os nossos dados para 2012 mostram que o índice é de 3% no Brasil. As Nações Unidas consideram que os dados oficiais da América Latina possam estar subestimados, uma vez que o volume de maconha apreendido no Brasil está entre os maiores do mundo e o país não é um grande fornecedor de nenhuma região. Embora a percentagem possa parecer pequena, o número de usuários é significativo, com mais de 1.5 milhões de pessoas consumindo maconha diariamente. Embora a quantidade de usuários relatados no Brasil seja relativamente pequena, a percentagem de dependentes de maconha entre usuários é a mesma encontrada em paises com maior prevalência de uso.

II LENAD:

·       1 em cada 10 adolescentes que usa maconha é dependente;

·       Mais da metade dos usuários experimentaram pela primeira vez antes dos 18 anos;

·       Homens usam 3 vezes mais maconha do que as mulheres;

·       17% dos adolescentes que usaram no último ano, conseguiram a maconha na ESCOLA;

·       75% da população não concordam com a legalização da maconha.

 

Sobre a cocaína, 3% dos adolescentes já experimentou alguma apresentação da cocaína, ou seja, cerca de 442 mil jovens. No último ano, a prevalência de uso dessa droga atingiu  244 mil adolescentes (2%). O consumo de cocaína intranasal é menor entre os adolescentes, sendo de menos de 2% tanto no uso na vida quanto nos últimos 12 meses representando 316 e 226 mil jovens respectivamente. Aproximadamente 1% dos jovens já usou cocaína fumada (crack/merla e oxi) pelo menos uma vez na vida . O uso de cocaína fumada na adolescência foi mais baixo, 1% para o uso na vida (150 mil jovens) e 0.2% de uso no último ano, sendo cerca de 18 mil pessoas. A idade de experimentação é um indicador importante, uma vez que estudos mostram que há uma relação entre a precocidade do uso e o aumento do risco de desenvolvimento de dependência e de outras doenças psiquiátricas. Constataram que quase metade dos usuários (45%) experimentaram cocaína pela primeira vez antes dos 18 anos de idade.

 Este estudo mostrou que  o Brasil representa o segundo maior mercado de cocaína do mundo quando se trata de número absoluto de usuários. O Brasil representa 20% do consumo mundial e é o maior mercado de crack do mundo.

 

Conceitos para pensar sobre a prevenção

Um dos principais fatores que levam os adolescentes a experimentar o uso de drogas é a curiosidade. O desejo de experimentar diversas formas de prazer e a onipotência o levam às atitudes ousadas que lhe proporcionam bem-estar e poder, além da importantíssima inserção social. O fácil acesso às drogas e o baixo custo atual também facilitam a experimentação precoce. Em geral, meninos experimentam antes que as meninas e talvez isso ocorra apenas pela acessibilidade mais fácil.

O termo resiliência é uma condição diferencial que permitirá que determinadas pessoas, mesmo submetidas a condições extremamente adversas, mantenham condições aceitáveis de saúde, qualidade de vida etc (Figile, Milagres e Crowe, 2009).  Os conflitos familiares, escolares, condições econômicas precárias ou excesso de poder econômico sem monitoramento parental podem levar a um comportamento inadequado ou abuso de substâncias psicoativas para solucionarem seus conflitos ou, simplesmente, anestesiarem-se dos problemas vigentes. Trata-de de um conceito importante para se pensar por que alguns adolescentes abusam de substâncias psicoativas e em um dado momento, muitas vezes, espontaneamente, resolve interromper o uso e se proteger, apesar das condições que o expõem à vulnerabilidade.

Crianças vítimas de vulnerabilidade social, em situação de rua ou de extrema privação, chegam, segundo um trabalho de Galduróz (1997), a apresentar uma prevalência trinta vezes maior no consumo de substâncias psicoativas (Scivoletto e Martins, 2003). Não se trata somente de privação materna mas de crianças desprovidas de modelos, de afeto e do olhar benévolo de um cuidador adequado.

Outro aspecto significativo é o consumo de substâncias feito pelos pais. Além da perturbação da dinâmica familiar, o modelo oferecido, bem como a dificuldade em impor limites, oferecer continência e ensinar a lidar com as frustrações, predispõe o adolescente a buscar na droga o alívio imediato e a repetir o comportamento de oposição em outros locais, onde não haverá tolerância e as consequências podem levar ao aumento de conflitos e logo, aumento de consumo por uma incapacidade de lidar com problemas de maior gravidade.

Os fatores de proteção ao consumo de substâncias psicoativas são identificados nos seis domínios da vida: individual – atitudes e predisposições; meio familiar – relações familiares e atitudes parentais; escola– clima seguro ou inseguro; amigos – envolvimento ou não com drogas; sociedade – tendências econômicas, falta de emprego; comunidade – organização ou desorganização (Zweig et al., 2002 apud Schencker e Minayo, 2005). Os fatores individuais relacionam-se com a auto-estima, temperamento, capacidade de solução de problemas e tolerância à frustração, principalmente. Os fatores familares protetivos acontecem quando há um bom diálogo com a família, afeto, confiaça, lazer e limites bem estabelecidos, com consequências para o que não é cumprido. Os amigos não usuários e o envolvimento com outras atividades de lazer protegem contra o uso de drogas. A sociedade funciona como fator protetivo quando há condições  econômicas favoráveis  que garantam alimentação, moradia, escola e lazer, bem como quando limita o acesso ao álcool, tabaco e drogas. A organização da comunidade torna-se protetiva através dos vínculos sociais, oferta de lazer, cultura e esportes e apego a situações saudáveis.

Os fatores de risco relacionam-se aos aspectos pessoais/individuais como histórico familiar de consumo de drogas, carência de vínculo com a mãe, carência de monitoramento familiar, graves conflitos familiares, rejeição pelos colegas, manifestações precoces de comportamento agressivo/antisocial, insucesso na escola, fracos vínculos sociais, rebeldia, amizades com usuários e uso precoce de drogas. Sobre os fatores de risco ambientais há a privação econômica e social, fácil acesso às drogas, escasso vínculo com a comunidade, difíceis transições da vida e normas comunitárias favoráveis às drogas (Pinsky & Bessa, 2004).

Pensando em prevenção, estudos indicam que as condições de formação de uma personalidade resiliente são: (a) colocar expectativas claras relativas ao comportamento; (b) monitorar e supervisionar as crianças; (c) reforçar com consistência atividades que favoreçam a socialização; (d) criar oportunidades para o envolvimento familiar; (e) promover o desenvolvimento das habilidades acadêmicas e sociais dos jovens (Hawkins et al., 1992). Mesmo quando já houve identificação de uso/abuso, é benéfico estudar os fatores de risco e proteção para montar estratégias que fortaleçam os fatores de proteção e reduzam os fatores de risco.

Classificações diagnósticas

Os sistemas classificatórios apresentam discordâncias e necessidades de aprimoramento bastante comentadas na literatura. A maioria dos instrumentos para avaliação de uso de substância psicoativa (SPA) deriva, entretanto, do DSM (Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders) . O DSM V (2013) não separa os diagnósticos de abuso e dependência como o DSM IV. Em vez disso, os critérios são fornecidos para o transtorno de uso de substâncias, acompanhado pelos critérios de intoxicação, abstinência da substância / distúrbios medicação-induzidas e distúrbios não especificados induzidos por substância. O critério de problemas legais recorrentes relacionados aos problemas de abuso de substâncias foi excluído do DSM-V e um novo critério, o desejo ou um forte desejo ou vontade de usar a substância, foi adicionado, dentre os critérios exigidos durante o período de 12 meses.

A gravidade dos transtornos de uso de substâncias  no DSM-V baseia-se no número de critérios aprovados. Novos especificadores adicionais incluem "em um ambiente controlado" e "em terapia de manutenção", como o status da situação. As atualizações ampliam a possibilidade de avaliação de prejuízo e enquandre nos critérios, assim como as mudanças que caíram em desuso como os termos “viciado” e “poliusuário”.

Na prática clínica é fundamental que conheçamos os critérios mais importantes e que haja bom senso baseado no grau de prejuízo e no que conhecemos a respeito da plasticidade cerebral e comprometimento cognitivo pelo envolvimento do sistema de recompensa em um cérebro em desenvolvimento, a fim de indicar o melhor tratamento.

1-    Forte desejo de usar a substância.

2-    Tolerância: necessidade de quantidades progressivamente maiores a fim de obter o mesmo efeito desejado.

3-    Abstinência: sintomas físicos e psíquicos na ausência da substância.

4-    Maior consumo de substância do que aquele pretendido.

5-    Esforços mal-sucedidos em reduzir o consumo.

6-    Muito tempo é gasto em atividades necessárias para a obetenção da susbtância.

7-    Priorização do consumo em detrimento das demais atividades sociais.

8-    Manutenção do uso, apesar dos prejuízos recorrentes.

 

 

Tipos de Tratamento

Até 1974, os adolescentes dependentes de álcool ou outras drogas recebiam tratamentos desenvolvidos originalmente para adultos. Wheeler e Malmquist propuseram o primeiro tratamento para jovens dependentes de álcool em regime de internação (28 dias), utilizando o modelo Minnesota, uma intervenção em grupo com o programa dos 12 passos dos Alcoólicos Anônimos. Estes autores levaram em consideração algumas diferenças entre o adolescente e o adulto, aplicando uma técnica essencialmente comportamental e diretiva (Marques e Cruz, 2000). Cerca de 80% dos jovens com problemas associados ao uso de drogas são tratados em ambulatórios por meio de abordagens individual, grupal, familiar ou uma combinação dessas, aplicando-se modelos teóricos variados (Addiction Research Foundation of Ontario, 1991). O tratamento pode ser feito em regime de internação parcial (hospital-dia) e em regime de internação integral, utilizando-se a psicanálise, a terapia comportamental, a cognitivo-comportamental, a interacional e a sistêmica, entre outras.

O melhor tratamento ambulatorial para adolescentes envolvidos com substâncias psicoativas prioriza as especificadades desta faixa etária, assim como deve se basear em ciência, acessibilidade e envolvimento familiar. Um modelo adequado segue os príncipios do NIDA, propõe ações preventivas, intervenções clínicas e reabilitação psicossocial.

 


NIDA (Instituto Nacional do Uso Abusivo de Drogas)

1 Individualização da abordagem.

2 Disponibilidade de acesso.

3 Multidisciplinaridade.

4 Plano maleável de tratamento.

5 Tempo de permanência mínimo.

6 Psicoterapia individual e em grupo.

7 Farmacoterapia.

8 Tratamento integrado da comorbidade.

9 Desintoxicação apenas como primeiro passo.

10 Tratamento voluntário e involuntário.

11 Monitoramento do consumo.

12 - Programas de tratamento visando à avaliação e à promoção da

saúde com relação a doenças como DST/AIDS, hepatites B e C,

tuberculose e outras doenças infecto contagiosas.

13 Tratamento de longo prazo.

Fonte: RIBEIRO, Marcelo. Organização de serviços

de tratamento para a dependência química, 2004.

 

O tratamento ambulatorial deve ser constituído de avaliação social e orientação de modo que sejam garantidos os direitos constitucionais e que seja viabilizado o tratamento: condições para manter o regime ambulatorial, transporte etc. Posteriormente, deve ser avaliado por um psiquiatra a fim de avaliar as possíveis comorbidades psiquiátricas e tratá-las, bem como encaminhar para a avaliação clínica, solicitar exames complementares e toxicológicos. Os adolescentes, em sua maioria, não se consideram doentes e não aceitam medicamentos. Reforçar o vínculo para depois prescrever uma medicação, se houver tempo para isso, é uma ferramenta útil que garante melhor adesão. O plano de tratamento deve ser feito pela equipe e contemplar psicoterapia de grupo ou individual.

O tipo de psicoterapia mais indicado é a TCC (Terapia CognitivaComportamental), a qual pretende criar espaços para reflexão e conscientização dos conflitos pessoais, por meio de escuta e interlocução, além de promover educação emocional e treinamento de habilidades sociais para adolescentes e jovens, visando ampliar a sua capacidade de auto avaliação e autocontrole em seus contextos cognitivo, emocionais e comportamentais e assim, possibilitar a melhora da qualidade de relação consigo próprio e do seu convívio social. A proposta da intervenção, baseada no modelo de terapia cognitivocomportamental, inclui o Treino de Habilidades, oferecendo recursos didáticos e vivenciais ao adolescente.

A avaliação psicopedagógica pode ser interessante porque possibilita prever a compreensão das condições de aprendizagem do adolescente (competências ou dificuldades) para lhe proporcionar o resgate das habilidades cognitivas e do vínculo positivo com o aprender, além de possíveis orientações aos projetos de estudo ou trabalho.

A terapia ocupacional  pode inaugurar ou estabelecer hábitos saudáveis e promover a socialização e reabilitação. Utilizase da atividade como instrumento de trabalho (Laranjeira, Padin, Paula, 2011).


Evidências sugerem que o gerenciamento de caso tem sido uma poderosa intervenção para assistir pessoas que possuem problemas psicossociais, incluindo doenças mentais crônicas, idade avançada e distúrbios emocionais infantis. Mais recentemente, este tipo de abordagem tem sido adaptado ao trabalho com dependência química (Figlie, Laranjeira, 2004). Sabe-se que ainda é difícil encontrarmos serviços no Brasil com este funcionamento eficaz mas, é claro o benefício deste atendimento na soluções de problemas, sem espera, que muitas vezes, até evita internações. Trata-se de uma pessoa da equipe que se responsabiliza por um grupo de adolescentes que devem se reportar a ela, assim como a sua família, para discutir conflitos, fazer combinados ou re-discutir o projeto terapêutico. A proximidade do gerente de caso com o adolescente e sua família facilitam o vínculo com o serviço, melhoram a adesão ambulatorial e confiança para o que lhe é orientado.

Sobre as modalidades de tratamento, há que se considerar que o adolescente é diferente do adulto, assim como sua capacidade de julgamento sobre a sua condição e as preocupações imediatas que não se limitam à saúde. O tratamento deve ser o mais personalizado possível, com atenção à demanda atual do caso. São três os regimes de tratamento para a dependência química: hospitalar seguido de ambulatorial;  ambulatorial, hospital-dia, CAPS (centro de atenção psicossocial) e comunidades terapêuticas. A indicação deve ser criteriosa e considerar condições clínicas, psiquiátricas, sociais e muitas vezes, jurídicas.

Sabe-se que que há escassez significativa de serviços adequados para este tratamento especializado para adolescentes. Há irregularidades burocráticas, técnicas e é preciso manter em mente que o objetivo maior não é prejudicar a socialização ou interromper as atividades escolares, embora os casos graves já evoluam com evasão escolar. No entanto, há situações em que é necessária a internação para atingir um período de abstinência e dar prosseguimento ambulatorial.

São indicações para a internação: comportamento agressivo direcionado a si ou a terceiros ou tendência suicida; risco de desenvolver síndrome de abstinência; necessidade de tratamento de outra comorbidade psiquiátrica e falha na tentativa de tratamento ambulatorial (Ribeiro, Laranjeira, 2012). O tratamento é a possibilidade do adolescente perceber outros parâmetros, receber um enfoque para suas qualidades, evitando as exposições aos riscos e vivenciando como é melhor aprender a lidar com os conflitos e melhorar as relações interpessoais.

Para o tratamento ambulatorial, as atividades individuais e em grupo mostram comportamentos bastante diferentes e produzem material para a análise dos profissionais. A frequência deve ser sempre informada aos genitores, quando eles se comprometem a vir desacompanhados, exceto na consulta de psiquaitria, a presença da família é fundamental para garantir melhor adesão, os exames toxicológicos são essenciais para dados objetivos e de auxílio para aqueles que estão engajados em manter a abstinência e o conhecimento de que serão testados os ajuda a conter o impulso de usar drogas. O contato com a escola e projetos vocacionais são muito produtivos sob o aspecto de vários orgãos cuidarem dos adolescentes, como na percepcão global do caso, além do investimento em outros interesses saudáveis e produtivos que podem atraí-lo mais do que o repertório de uso das susbtsinaicas psicoativas.

 O tratamento farmacológico foca as comorbidades psiquiátricas, sendo as mais frequentes os transtornos de humor e o transtorno do déficit de atenção e hiperatividade. Como na psiquiatria da infância e adolescência de forma generalizada, são utilizados antidepressivos inibidores da recaptação de serotonina, estabilizadores de humor, metilfenidato, lisdexanfetamina e antipsicóticos. Devem ser evitados os benzodiazepínicos pelo alto risco de dependência química destas substâncias, em especial nesta população.

O topiramato (TPM) é uma intervenção farmacológica promissora no tratamento da dependência de cocaína, em média 200mg/dia,  em virtude do envolvimento dos sistemas gabaérgicos e glutamatérgicos na modulação do sistema de recompensa cerebral. O TPM exerceria a sua ação anti-craving ao promover aumento da neurotransmissão gabaérgica e inibição da atividade dos receptores AMPA/kainato (Reis e Laranjeira, 2006). Entre os medicamentos testados até agora, o disulfiram tem demonstrado o efeito mais consistente em reduzir o uso de cocaína (Suhl et al, 2006). No entanto, o risco é alto quando se trata de adolescentes e da crítica relacionada à necessidade de abstinência do álcool para o uso de dissulfiram.

 

Dinâmica Familiar

 

Não existe atualmente um modelo único de família, ao contrário, as famílias apresentam modelos de muitas diversidades e constroem valores, regras, e modelos de afetividade baseados em sua própria história, com múltiplas realidades e diferentes contextos (Silva, 2011). Houve uma mudança nos padrões, a partir do ingresso da mulher no mercado de trabalho e menor tempo e presença na educação dos filhos. Além disso, houve aumento do número de divórcios e novos modelos familiares. A afetividade parece mais presente entre pais e filhos e assistimos às consequências negativas de menos limites e menos regras, daqueles que trabalham o dia todo e sob o desejo de compensar a sua ausência, gratificam os filhos com a falta de regras e a resposta dos filhos terá repercussão familiar, escolar, social e no sistema de recompensa, buscando sempre o prazer imediato.

A necessidade do acompanhamento familiar para o resultado satisfatório do tratamento de adolescentes usuários de álcool e outras drogas foi investigada por Schenker e Minayo (2004) mediante uma revisão bibliográfica sobre o tema. Segundo as autoras, os estudos investigados contribuíram para o entendimento de como a família está implicada no desenvolvimento saudável e não saudável dos adolescentes. Em conjunto com a escola e os grupos de amigos, a família exerce grande influência na manifestação do uso de drogas. Portanto, há um consenso sobre a necessidade de se tratar o sistema familiar (Almeida, Oliveira, Pinho, 2008).

O tratamento da família, as orientações de como esta dinâmica se dá, a informação, a psicoeducação contribuem muito para uma interpretação menos enviesada, que possibilita melhora da comunicação do adolescente com a sua família, fundamental para a sua aderência e progresso no tratamento.

Conclusões

A adolescência é a fase mais vulnerável para a experimentação de substâncias psicoativas devido ao risco da ativação do sistema de recompensa durante o cresicmento e desenvolvimento cerebral. A acessibilidade aumentada demonstra aumento de uso de usuários de drogas na adolescência no mundo inteiro. A família tem papel fundamental no estabelecimento de regras e continência afetiva que podem agir como significativo fator protetivo contra a instalação da dependência química nesta faixa etária. O tratamento deve ser personalizado e atender à demanda individual, sendo que o mais precoce possível costuma render os melhores resultados e por isso, precisamos conhecer os efeitos das substâncias psicoativas sobre as crianças e os adoelscentes a fim de fazermos intervenções e encaminhamentos adequados.

 

 

Referências

1-    Arain M, Haque M, Johal L, Mathur P, Nel W, Rais A, Sandhu R, Sharma S. Maturation of the adolescent brain. Neuropsychiatr Dis Treat. 2013;9:449-61.

2-    Robaina, José Vicente Lima. DROGAS: o papel do educador na prevenção ao uso. Porto Alegre. Editora Mediação, 2010.

3-    Pinsky, I.; Bessa, M. A. (Eds.). Adolescência e drogas. São Paulo: Contexto, 2004, (pp. 37).

4-    Stella, N. et al. Crianças e adolescentes vulneráveis e drogadição. Em: Zavaschi ML et al. Crianças e Adolescentes Vulneráveis. Porto Alegre: Artmed, 2009; (pp. 183-211)

5-    N. Jainchill e R. Margolis, "Editors' introduction - Issues in adolescent substance abuse treatment: Perspectives, approaches and solutions", J PSYCH DR, 32(1), 2000, pp. 1-2

6-    Figlie, NB, Milagres, E. , Crowe, J. Família e Dependência Química: Uma Experiência de Prevenção com Crianças e Adolescentes no Jardim Ângela. São Paulo, Editora Roca LTDA, 2009.

7-    Bessa, M.A., Boarati, M.A., Scivoletto, S. Crianças e Adolescentes. Em: Diehl A, Cordeiro DC, Laranjeira R. Dependência Química: Prevenção, Tratamento e Políticas Públicas. Editora ARTMED, Porto Alegre, 2011.

8-    Kaminer, Y. Adolescente Substance abuse: a comprehensive guide to theoryand practice. Nova York: Plenum, 1994.

9-     NIDA. National Institute on Drug Abuse. Principles on Drug Addiction Treatment. Disponível em: http://www.drugabuse.gov/publications/principles-drug-addiction-treatment/frequently-asked-questions/what-are-unique-needs-adolescents-substance-use-d

10-  MacCrady, B.S., Epstein, E.E. Addictions: a comprehensive guidebook. New York: Oxford University; 1999. p.483.

11-  II LENAD. lI Levantamento Nacional de Álcool e Drogas. Disponível em URL: http://inpad.org.br/lenad/.

12-  Galduróz, J.C.F., Noto, A.R., Carlini, E.A. IV levantamento sobre o uso de drogas entre estudantes de 1º e 2º graus em 10 capitais brasileiras- 1997. São paulo: centro Brasileiro de Informações sobre Drogas Psicotrópicas (CEBRID), 1997.

13- Scivoletto, S., Martins, T. Drogas e álcool. In: Assupção Jr. F.B., Kuczinski, E. (Ed). Tratado de psiquiatria da infância e adolescência. São Paulo: Atheneu, 2003. P.515-534.

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