São Paulo / SP - segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

Transtorno de Humor Bipolar na Infância e Adolescência

Transtorno de Humor Bipolar na Infância e Adolescência

É recente a divulgação do termo “transtorno bipolar” de forma tão disseminada como ocorre atualmente. Muitas pessoas sabem que se trata de uma condição que envolve mudanças significativas de humor.  Outra parcela da população detém o conhecimento de que é um transtorno psiquiátrico que provoca um sofrimento, atrapalha a vida do indivíduo e necessita de tratamento com um especialista a fim de promover melhor qualidade de vida e menores danos possíveis.

Muitos dos transtornos psiquiátricos têm início na infância e na adolescência e, dependendo da gravidade como se manifesta, podem-se levar muitos anos até que o diagnóstico e tratamento adequados sejam realizados. Existem poucos estudos sobre o transtorno de humor bipolar (THB) na infância e adolescência.  Nenhum estudo epidemiológico foi conduzido para avaliar a prevalência em crianças. No entanto, para adolescentes, foi constatada a prevalência de 1% ao longo da vida. Entretanto, em estudos de adultos portadores de transtorno bipolar, a grande maioria apresentava alterações de humor antes dos 18 anos, como na amostra do estudo de Harvard, com 983 pacientes.

Além da escassez de estudos disponíveis, um dos motivos para a baixa detecção pode ser a diferença da apresentação clínica deste transtornos nas crianças e adolescentes, comparados aos adultos. A dificuldade está em identificar as características atípicas  do humor irritável, tempestades afetivas, crises graves de descontrole de impulsos, curso da doença crônico ou episódico, ciclos rápidos que variam entre tristeza e euforia, tristeza e irritabilidade,  grandiosidade, confrontação e desrespeito acentuados com os limites geracionais (pais e professores), quadros mistos, início do quadro com episódio depressivo, hiperssexualidade (atitudes inadequadas no convívio social, masturbação excessiva), casos positivos na família e altas taxas de co-morbidade com transtorno de déficit de atenção e hiperatividade (TDAH).

As crianças e adolescentes portadores de THB podem apresentar evidência de prejuízo acadêmico ou social, sofrimento clinicamente significativo, isolamento social, agressividade, comportamento delinqüente,  ansiedade e depressão de comprometimento mais grave, maiores riscos de acidentes e exposição sexual devido à impulsividade, co-morbidades com TDAH, transtornos de conduta e transtornos por abuso de substâncias. Segundo Erikson (1971),  autor da teoria dos estágios de desenvolvimento psicossocial,  a adolescência é o período psicológico mais importante da vida do indivíduo, quando ocorre a transformação psíquica crucial para a formação do senso de identidade, daí a necessidade de que esta vivência seja proporcionada de forma mais saudável, uma vez que estão em processo de desenvolvimento e  há o risco repercussões negativas na vida adulta.

A causa do THB é desconhecida e os estudos sugerem que esteja relacionada à vulnerabilidade biológica, provavelmente determinada por múltiplos genes e os chamados gatilhos ambientais. O diagnóstico é clínico e deve ser realizado por um profissional especializado que é o médico psiquiatra da infância e adolescência. Ainda não há exames de imagem disponíveis para confirmação do diagnóstico, embora a ressonância magnética por espectroscopia tenha demonstrado diferenças de neurometabólitos em crianças que tem a co-morbidade de THB e TDAH (hiperatividade) quando comparadas àquelas apresentam somente TDAH, o que por enquanto, tem aberto caminhos para uma série de investigações de neuroimagem no transtorno de humor bipolar juvenil.

Mesmo para o psiquiatra, o diagnóstico pode ser demorado, considerando as alterações de humor características de cada fase do desenvolvimento. Os primeiros sintomas são percebidos, principalmente, pelos pais, professores, pediatras, clínicos e ginecologistas. O acompanhamento adequado com um médico de sua confiança é a melhor garantia de conhecimento sobre os dois pólos deste transtorno pois, a mudança freqüente de seguimento de tratamento dificulta a ampla visão de cada caso. Por isso, é importante investir na relação médico-paciente, quando é possível, a fim de evitar o início de uma nova e longa jornada de investigação, bem como os riscos das freqüentes e disseminadas prescrições de antidepressivos, que nesses casos, seria um fator complicador do curso da doença. Também é importante enfatizar as sobreposições de sintomas de humor e sintomas de déficit de atenção, hiperatividade e impulsividade que, muitas vezes, são diferenciadas somente com um conhecimento aprofundado sobre o paciente.

O tratamento precoce produz benefícios tanto para a criança ou adolescente, como para a família. É realizado através do uso de medicações estabilizadoras do humor e antipsicóticos atípicos, que são consideradas medicações de primeira linha, baseadas nos poucos estudos existentes. É importante lembrar que o uso de psicofármacos na infância e adolescência tem suas peculiaridades e a monitorização clínica deve ser mantida. A psicoterapia é uma modalidade  de tratamento de significativo benefício para o paciente, bem como a psicoeducação.  A aderência ao tratamento é responsável por grande parte de seu sucesso pois, é muito comum, os pacientes e seus familiares apoiarem a desistência do tratamento quando há melhora dos sintomas, associada à grande vontade de parar de tomar a medicação, sendo que se trata de um transtorno com riscos freqüentes de recorrência.

Além dos aspectos biológicos e psicológicos envolvidos, considero parte fundamental do tratamento a promoção de um ambiente social saudável, com o calor das relações afetivas, busca de atividades prazerosas,  disciplina com horários adequados de rotina de sono e  de alimentação, bem como de uma atividade física regular que proporcione gasto de energia, redução do stress e sensação de  bem-estar.

Leia mais em: www.bpkids.org. Os textos em inglês trazem excelentes informações.


Juliana Gomes Pereira

CRM-SP: 127.410

Médica Psiquiatra de Adultos, Crianças e Adolescentes

Certificada para Atuação em Psiquiatria da Infância e Adolescência pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Certificada para Atuação em Psicoterapia pela Associação Brasileira de Psiquiatria (ABP).

Coordenadora do Ambulatório de Álcool e Drogas e Abuso e Violência na Infância e Adolescência vinculado á Faculdade de Medicina do ABC.

Psicanalista de Crianças pelo Instituto Sedes Sapientiae.

Extensão em Dependência Química na Adolescência pela UNIFESP.