São Paulo / SP - segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

A Fuga da psicose pelo Sujeitamento

Introdução

 

Freud (1924) propôs uma diferenciação do aparelho psíquico, descrevendo-o em relação aos numerosos tipos de relacionamentos dependentes do ego, do id, do mundo externo e a necessidade econômica de agradar a todos. Postulou que a psicose é um conflito entre o mundo externo e o ego. Trata-se de uma falha da repressão que, por ser muito mal sucedida, cria uma fenda na realidade provocando a falta de percepção do mundo exterior. Assim, o ego cria um mundo interno e externo, dissociado da realidade, de acordo com os impulsos desejosos do id que respondem a uma frustração intolerável.

O rompimento com o mundo real afasta o sujeito cada vez mais de sua subjetividade e a forma de lidar, clinicamente, com pacientes psicóticos, implica em possível determinante do prognóstico, uma vez que o olhar de sujeitamento poderia conferir um convite á ilusão e assim, ao questionamento dos delírios. Atribuir articulação ao sujeito cria condições de subjetivação e uma possibilidade de entrada no mundo da realidade.

Serão discutidos os textos sobre psicose: “Neurose e Psicose” e “A perda da realidade na neurose e na psicose” (Freud, 1923,1924), “A Clínica psicanalítica das psicoses” (Ribeiro, 2005) e apresentação de caso de Maria Dias Soares nos Seminários com Silvia Bleichmar ilustrados com uma vinheta clínica de uma criança de seis anos que recebeu intervenção psiquiátrica-psicanalítica.

 

 

 

A Psicose

 

Freud referiu que a precondição de conflito com o mundo externo não nos é muito mais observável do que atualmente acontece porque as manifestações do processo patogênico são recobertas por uma tentativa de cura ou uma reconstrução. Por isso, o delírio pode ser entendido como uma busca de contato, uma tentativa de retorno á realidade. Trata a etiologia da psicose como uma frustração infantil profundamente enraizada que pode ser de fator externo ou interno e o efeito patogênico depende do ego, de sua flexibilidade e de sua força diante dos conflitos de tensões. Se permanecer fiel a sua dependência do mundo externo e tentar silenciar o id, mantém-se na realidade mas, se ele se deixar derrotar pelo id, há o rompimento com o mundo externo e a fenda deixada poderá ser preenchida por delírios e alucinações.

Ribeiro (2005) descreve um paciente psicótico institucionalizado e ilustra o quadro clínico com o relato do homem que chama de “O homem mais solitário do mundo”. Ele parece jovem, manso, obediente, assujeitado.  Fala que ele se comunicava telepaticamente com todos, sem qualquer sinal de privacidade. Não tinha limite corpóreo, não tinha memória á disposição dele. Vivia como se o tempo não passasse. Até que um dia, solicitou um pedido á analista que já o havia atendido em grupo, em outras circunstâncias: queria ler com ela o seu prontuário. Queria saber sobre si mesmo através das palavras dos outros.

Trata-se de um pedido muitíssimo interessante, considerando a psicose instalada há muitos anos. A estrutura psicótica ocorre quando não houve rotação da dependência do outro para a independência. É preciso ser dito pelo outro para se fazer a passagem para o dizer de si mesmo. Ao desejar ler seu prontuário, há atribuição de desejo ao sujeito e assim, a partir do momento em que ele pode dizer, também pode alienar-se do desejo do outro que se sujeita. Começa a querer ser ouvido como ele mesmo e a analista é a testemunha da formação de alguém, ou seja, da existência do sujeito.

Há uma descrição importante do pai do paciente, com quem ele não podia ter segredos. Havia uma transparência, quase telepática em que tudo o pai sabia, como uma extensão do próprio indivíduo, sem contorno, sem limites e privacidade e o delírio preenchia uma emenda, num sentido próprio para distinguir-se desse pai.

A simbiose é bastante evidente em casos de psicose e também está descrita no relato de caso feito por Soares em que a mãe adivinha o que o filho pensa e assim, não permite que ele se constitua como sujeito. Relata o caso de Pedro, 10 anos, uma criança que percorria consultórios há seis anos e sem diagnóstico referido pelos pais. A mãe dizia que ele apresentou atraso de fala mas ela o interpretava, o que acabava com a possibilidade de despertar nele o desejo de se pronunciar. Apresentava-se agitado, com maneirismos, perguntas repetidas e estereotipadas, sem iniciativa, com aparente déficit de subjetivação. Assim como o pai pouco afetivo do “Homem Solitário”, também o era a mãe de Pedro, a qual relatava sem angústia o quadro clínico de seu filho. Neste caso, os pais não conseguiam brincar com ele. Corrigiam-no o tempo todo,  em atitude de reclamação e desvalorização do discurso de seu filho, como se fosse alguém que não pudesse dizer o que acha, como se fosse desprovido de subjetividade.

O “Homem solitário” faz um pedido de mudança que é a leitura de seu prontuário. Busca o acesso ás suas memórias e a possibilidade de ser sujeito de sua história quando pede, além de ler, para escrever em seu prontuário. Em casos de psicose, há um obstáculo entre a dependência absoluta do narcisismo primário e a condição mínima de independência, que se traduz como resultado de uma falha no trânsito entre o estado de alienação e a possibilidade de ser sujeito. Ribeiro (2005) cita Piera Aulagnier que diz que o que não se dá para o psicótico é a possibilidade de que ele se despregue da alienação primeira em que teve início porque ele não é nomeado pelo outro como outro também. A mãe o vê como apêndice de seu corpo, indistinguível e o aprisiona na condição de ausência de desejo que lhe pertença. Bleichmar também cita a autora sobre o questionamento de que com que sistema se escuta o outro, considerando um pedido de mudança de um sujeito que está aquém de si mesmo e o conhecimento de que constituição de ego está presente em um dado momento para que se possa atribuir o desejo. Esta preocupação ocorre porque a técnica clássica não funciona quando não está constituída a subjetividade.

Para Bleichmar, o Pedro era um caso de psicose por restituição, com aderência especular num sujeito que não se constitui a não ser por pregnância ao objeto e a intervenção necessita ser a de recomposição especular de transferência para subjetivá-lo e diferenciá-lo no interior da transferência. Soares exemplifica um exemplo clínico quando Pedro diz que está com sede e ela diz que ela não está. O menino levou um susto e foi buscar a água. Assim, há diferenciação entre ele e o outro, pontuação de desejos diferenciáveis, não há adivinhação do que ele sente, tampouco providência para suas necessidades sem que possa sentir a falta e buscar o que deseja.

Segundo Freud (1924), há um mecanismo correspondente á repressão,  por cujo intermédio o ego se desliga do mundo externo e relaciona-se com um fracasso ao funcionamento do ego, em que haverá uma retirada da catexia enviada pelo o ego. Na psicose infantil, não houve o recalque originário e o trabalho do analista será o de abrir espaço para o delírio, para a constituição de sujeito oferecendo o estatuto de realidade, fazendo interdições. Por isso, o caso do menino Pedro mostra a necessidade de estar ao lado e trabalhar a constiuição, a qual teria sido mais acessível se o tratamento tivesse início em idade mais precoce.

É interessante observar os processos entre os casos clínicos descritos. Na psicose infantil descrita em Pedro, é preciso trabalhar com os bizarrismos psicóticos e a subjetivação. O “Homem solitário” era um psicótico mais constituído, embora assujeitado. O desligamento com o mundo externo ocorre com o “Homem solitário” quando ele não pode ser dito por si mesmo e fala através do pai, aquele que está colado nele e tudo sabe. Pedro está colado na mãe que o trata como se ele não fosse sujeito desejante e não abre o caminho do desejo como por exemplo, ao mandá-lo a um acampanhamento desconsiderando a vontade da criança ou desvalorizando a importância da despedida da escola. Neste caso também é possível observar a clivagem da realidade de Pedro com o mundo externo e da mãe, a qual não viu dificuldade em enviar um filho com tamanho comprometimento ao acampamento.

Freud (1924) discerne duas etapas na psicose. Na primeira etapa, o ego seria arrastado para longe da realidade e a segunda tentaria reparar o dano causado e restabelecer as relações do indivíduo com a realidade ás custas do id, sob uma criação de nova realidade através de uma tentativa de remodelamento.  Por isso, na psicose, há um repúdio á realidade e inclinação a substituí-la. Se na psicose, a transformação de realidade é feita baseada nos resquícios psíquicos como traços de memórias, julgamentos e percepções de relações com ela, tornam-se compreensíveis as diferenças da psicose no adulto e na criança.

O “Homem solitário” consegue acessar algumas lembranças, depois que passa a escrever a sua história. Ao apropriar-se dos fatos que lhe pertenciam, começou a dar significado para os traços que guardava e que pareciam traços brancos. Pedro se mostra em foto de quando era pequeno e quando a analista questiona se aquele Ordep, personagem criado por ele com as letras de seu nome ao inverso, é um lado seu, reconhece prontamente que aquele era ele mesmo. Pedro também se apropria de si mesmo quando traz o filme do Corcunda de Notre Dame, identifica-se e é percebido pela analista, que age como interlocutora ao dizê-lo ao seu pai.

Tanto o “Homem solitário” como Pedro depararam-se com um novo lugar através do atendimentos psicanalíticos. O “Homem solitário” convocou o outro (analista) a ler, com ele o seu prontuário. Houve um desejo, depois de anos, camuflado dentro do pai, de alienar-se do desejo do outro para constituir-se, para criar a possibilidade de existência. Os delírios agiam como instrumentos da tentativa de conexão com a realidade e passaram a ser questionados e não mais convictos. Há que se valorizar a aposta da analista de que havia algo a ser comunicado e o oferecimento de um espaço, de uma sustentação para a legitimação daquele sujeito, que a partir disso, pôde construir um entorno de si mesmo. Pedro passou a ser olhado como sujeito, embora estivesse aquém desta condição e a ser investido pela analista, num processo de subjetivação, articulação, interdição da excitação excessiva e parada forçada para a escuta, com reconhecimento do que se passava com os seus pensamentos.

 

Conclusão

 

A atitude psicanalítica pode produzir um efeito de subjetivação através da implicação de alguém que deseja e pode dizer em nome próprio. Quando os pais são convocados a olhar a criança psicótica com mais possibilidades e quando o fazem e viram respostas, motivam-se ainda mais a tratá-la, olhá-lha e significá-la de outra maneira. É importante informar sobre prognóstico e sobre as respostas ao alto valor de investimento, de aposta de sucesso na criança e da importância de abandono de olhar de criança “especial”. A subjetivação do filho cpode ser a abertura de um grande leque de possibilidades de existência.

 

Bibliografia:

Freud, S. (1969). Neurose e psicose. In S. Freud. Edição Standart Brasileira das Obras completas de Sigmund Freud (vol 19). P.165-171. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1924).

Freud, S. (1969). A perda da realidade na neurose e psicose. In S. Freud. Edição Standart Brasileira das Obras completas de Sigmund Freud (vol 19). P.203-209. Rio de Janeiro: Imago. (Trabalho original publicado em 1924).

Ribeiro, A.M. A clínica psicanalítica das psicoses: criação de possibilidades de existência. Percurso 34. p.99.

Soares, M.D. Apresentação de caso. In: Seminários com silvia Bleichmar. Disponibilizado em aula.