São Paulo / SP - segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

Medicalização e Psicanálise

Medicalização e Psicanálise

A medicalização indiscriminada evidente na contemporaneidade desperta o interesse e o incômodo de muitos profissionais envolvidos nos tratamentos para o sofrimento psíquico.  O imediatismo acentuado da modernidade implica na busca, pela sociedade, de soluções rápidas, tornando a capacidade de lidar com a angústia, cada vez mais reduzida Para Freud, a angústia é o motor funcionante para a sustentação da psicanálise. Segundo Bogochvol (2001), os psicofármacos agem, são eficazes, e isto tem importância para a psicanálise, afetando seu campo que tem numerosas intersecções com a psiquiatria. No entanto, a contemporaneidade, baseada na mudança dos processos sociais e culturais, não contém a inquietação psíquica e busca a artificialização da vida, o que se apresenta através da hiper-medicalização, como se todas as angústias e mudanças de comportamento pudessem ser catalogadas dentro da Classificação Internacional de Doenças (CID10) e houvesse um correspondente antídoto para cada enfermidade.

A medicalização psiquiátrica na infância e adolescência trouxe inúmeros benefícios em casos adequadamente diagnosticados de transtornos mentais. Possibilitou alívio de sintomas intensamente desgradáveis que prejudicam o desenvolvimento, permitiu mais favorável integração social e minimização de prejuízos para os pacientes.

         A medicalização psiquiátrica indiscriminada de crianças e adolescentes provocou uma falsa ideologia de que as alterações de comportamento são possíveis de serem enquadradas em um manual diagnóstico, com possível explicação biológica e medicação eficaz e resolutiva. No entanto, este pensamento errôneo associa-se á dificuldade contemporânea de suportar a angústia, bem como de lidar com ela, como já dizia Freud (1930) em “O mal estar da civilização”.

         A psicanálise pode ser um recurso bastante valioso tanto como terapêutica principal e única mas também como aliada aos tratamentos psiquiátricos. Considerando as mudanças culturais das últimas décadas, as crianças e adolescentes, possuem uma rotina bastante ocupada com inúmeras atividades e pouco tempo com os pais. Muitas ausências podem ser sinalizadas e representadas através de sintomas. A análise propicia um espaço diferenciado onde as vivências podem ser re-significadas e outras formas de lidar com a angústia são construídas. Por isso, compartilhar com a criança e acompanhar o adolescente é, assim, dispor-se a uma comunicação direta com seu silêncio e sua solidão, estabelecendo uma ressonância afetiva que lhes permite ficar sós, mas não traumaticamente abandonados.