São Paulo / SP - segunda-feira, 06 de dezembro de 2021

Crack: do Consumo ao Tratamento

Iniciei o Curso da UNIFESP-UNIAD sobre Crack e vou dividir algo do que foi estudado. A referência principal é o Livro: Ribeiro, M. Laranjeira, R. O Tratamento do Usuário de Crack. 2 ed. São Paulo-SP: Editora Artmed, 2012.

Em São Paulo, o crack apareceu a partir dos anos 90 e a apreensão da pasta básica aumentou inicialmente pela polícia federal. No entanto, provavelmente pelo risco de explosão doméstica desta forma da cocaína, logo foi substituída pelo cristal de cocaína. A partir de 1997, foi registrado aumento de 46% do uso de crack. O perfil dos usuários era do sexo masculino, menores de 30 anos, desempregados, com baixa escolaridade, baixo poder aquisitivo e provenientes de famílias desestruturadas. A mortalidade era significativa, sendo sua maioria decorrente de homicídio. Os ambientes de tratamento e as pesquisas começavam a dar seus primeiros passos. O maior motivo para a busca do crack era referida como a busca pela sensação de prazer.


A partir de 2000, novos centros de pesquisa foram desenvolvidos, assim como uma maior oferta de ambientes de tratamento. Os métodos de pesquisa, principalmente os levantamentos epidemiológicos, tornaram-se mais fidedignos, houve maior financiamento, diante dos dados cada vez mais alarmantes, como por exemplo, o aumento do consumo, em ordem decrescente, de crack entre crianças e adolescentes moradores de ruas nas principais capitais do país: Rio de Janeiro, São Paulo, Recife e Brasília, assim como os levantamentos que evidenciaram o consumo em outras classes sociais entre os estudantes nos V e VI Levantamentos. Aqui, o maior motivo para a busca do crack passa a ser a compulsão, a dependência ou como forma de lidar com problemas familiares, assim como as frustrações.


 O crack é a forma principal de cocaína fumada. No entanto, a pasta básica proveniente da maceração de folhas de coca com solvente também pode ser fumada e, se acrescida de outros resíduos, transforma-se em merla e também pode ser fumada. A base-livre ou free-basing é obtida a partir de cocaína refinada e éter sulfúrico e também é fumada mas, o risco de acidentes devido á capacidade inflamável do éter reduziu o consumo. A pasta de cocaína também pode ser fumada em cachimbos se misturada com tabaco ou maconha (mesclado).

 

 Considero o CEBRID- I e II levantamento Domiciliar realizados nas 108 maiores cidades do Brasil de 2005 uma boa fonte epidemiológica do consumo de crack. A região Sul mostrou-se a mais prevalente com 1.1% de uso de crack e 0.2 de merla, enquanto a região Sudeste revelou 0.9% de uso de crack e 0.1% de merla. A UNIAD/UNIFESP realizou significativos estudos sobre a evolução dos usuários de crack e cocaína, ambientes de tratamento e resultados ao longo de seguimentos mais prolongados, como por exemplo, o aumento da abstinência com o aumento da idade dos pacientes e a piora do prognóstico sob persistência do uso após tratamento.


 O PERFIL


 O perfil mais comum é do usuário de crack ser do sexo masculino,  jovem, com baixa escolaridade, desempregado, com baixa renda, proveniente de família desestruturada e poliusuário de substâncias psicoativas. Usuários iniciantes de crack tem o risco duas vezes maior de dependência do que usuários de cocaína e o risco de dependência declina a cada ano, o que mostra a diferença entre a instalação insidiosa da dependência da maconha e do álcool. Os adolescentes masculinos tem maior tendência á dependência, embora a diferença entre os sexos acabe na vida adulta e a dependência na mulher esteja mais associada á prostituição e á aquisição de doenças sexualmente transmissíveis. A violência está associada aos usuários de crack, assim como a mortalidade por homicídios. O perfil dos adolescentes usuários de crack que eu atendo é do sexo masculino, de faixa etária entre 15 e 17 anos, nenhum deles terminou o ensino fundamental, nenhum deles trabalha, a maioria é proveniente de famílias desestruturadas, a maioria teve envolvimento ilícito, faz uso concomitante de álcool, tabaco, maconha e cocaína, são encaminhados para tratamento ambulatorial pela Vara da Infância e Juventude ou pelo Conselho Tutelar e não estão motivados para mudanças.

Entre os adolescentes, ainda não atendi nenhum que tenha sido infectado pelo HIV. No entanto, é frequente o relato de sexo sem proteção e a crença de que não estão em perigo. Para combatê-lo, fé preciso realizar o trabalho de psicoeducação e prevenção. Nunca atendi nenhum usuário  de crack ou cocaína injetável.


É interessante pensar que, em menos de 20 anos, observamos tamanho prejuízo de saúde, ocupacional e de exposição á violência. É Incrível como o crack surgiu como uma alternativa mais barata do que a cocaína mas, a fugacidade de prazer e maior fissura, promovem aumento do uso e, inclusive, dos gastos com a droga. A falta de informação dos adolescentes usuários é significativa no que tange á origem da cocaína e do crack.


Os usuários de cocaína intranasal possuem um padrão mais grave de consumo, maior envolvimento com atividades ilícitas, prostituição, de ter morado na rua e de ter efeitos adversos com o uso intenso da substância, sendo que os usuários de cocaína tem um prognóstico mais favorável do que os usuários de crack.

A maioria dos usuários de crack era poliusuário antes de iniciar este uso: álcool, tabaco, maconha e cocaína, principalmente.

O conceito de binge é o padrão de consumo intenso, repetitivo e contínuo de crack que pode durar até que a disponibilidade da droga acabe ou até a exaustão do usuário. É observado em adultos e o risco maior quando observados em adolescentes está relacionado á característica fisiológica de onipotência e curiosidade por novas sensações, que predispõem ao risco de overdose e maiores efeitos adversos das substâncias, além dos outros riscos, diante da intensa fissura,  para a obtenção da droga: furtos, roubos, sexo sem proteção etc.


Penso que o crack, por ser tão devastador cognitiva e socialmente, leva ao padrão de extremos que produzem um incômodo tamanho que, com o aumento da maturidade, os pacientes que viveram as piores consequências, protegem-se do risco buscando a abstinência. No entanto, há um grupo que sofre de tamanha deterioração do sistema de recompensa que parece impossível obter gratificação a partir de outros meios, fazendo com que s valores morais sejam perdidos, a busca por outras formas de prazer seja abolida e o único meio de lidar com as frustrações é a droga. Como observamos nas pesquisas, o grupo que mais mantém o uso é aquele que não está disposto a fazer mudanças e o usuário crônico é aquele que menos procura atendimento.


O fator de precocidade do uso e o aumento do risco de dependência me chamam a atenção porque tem a ver com a população adolescente que atendo. A dependência aumenta á medida em que a maturidade ainda é precária, o repertório social é escasso, o controle de impulsos é baixo assim como a auto-estima, a baixa condição de resolução de problemas e o ineficaz monitoramento parental contribuem para um padrão de uso cada vez mais compulsivo, levando aos inúmeros prejuízos biopsicossociais. Por outro lado, a oportunidade de oferecer tratamento precoce também constitui importante fator protetivo, que poderia modificar a história natural da doença.